terça-feira, 22 de novembro de 2016

Por gentileza, morra-me!

Morra-me
Mas morra-me aos poucos
Morra-me como quem definha
Morra-me como quem perece
Como quem padece
Mas, por gentileza, morra-me.

Não me mate.
Isso não, isso nunca.
Não me assassine nem me dilacere
Apenas morra-me.
Morra-me em cada bituca de cigarro
em que debilmente me imagina
Morra-me em cada copo de garrafa
em que me prende em sua memória
Morra-me em cada momento bom
cure-se morrendo-me
Mas, por gentileza, morra-me.

Morra-me assim, devagar
Morra-me como quem não me quer morrer
Como quem quer aproveitar cada passo
Cada pedaço
Cada resquício
Mas, por gentileza, morra-me.

Não me morra em mim
Não me morra no eu que te fale
Não me morra de uma forma brutal, definitiva
Mas morra-me
Morra-me impreterivelmente
Morra-me irremediavelmente
Morra-me incorrigivelmente
E, se puder e caso se atreva
Morra-me agradavelmente
Morra-me aos poucos, em você
Mas, por gentileza, morra-me.

Morra-me saboreando-se
Aproveitando para destilar em ti cada gota de mim
Morra-me livrando-se
Morra jogando fora o que de mim em ti se apega
Morra-me como preferir
Mas, por gentileza, morra-me!

(Poema escrito após finalizar e refletir sobre o livro Uma Duas, da autora Eliane Brum, ao perceber que de fato, todos nós guardamos um pouco dos outros em nós, e um pouco de nós nos outros).

Um comentário:

  1. Nada que eu diga chegará aos pés desse poema.
    Forte, impactante, verdadeiro e lindíssimo.
    Excelente!

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