quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Aos Titãs que Antevieram

Queria ser pessoa. Não pessoa, Pessoa.
Não queria ser pessoa gente, queria ser Pessoa. O Pessoa.
Queria ter a majestade de Pessoa com as palavras, capaz de tecer sobre a tela áspera das palavras a ácida pintura da hipocrisia humana, mas Pessoa era mais que pessoa, ele era, antes, Fernando, mas pouco nos perguntamos sobre Fernando (a pessoa, não o Pessoa). Me pergunto se me perguntaria quem era Fernando que não Pessoa... Mas isso, às pessoas, pouco importa. Daí se vai que o autor de muitas pessoas e muitas Pessoas morreu perguntando-se o que amanhã traria.
Queria ser Whitman, ser Maiakovsky, ser Wilde, Shakespeare, ser míster em palavras, capazes de dançar entre elas com um silêncio solene, deixando apenas que suas letras falassem volumes muito maiores do que suas bocas jamais conseguiriam produzir. Mas não queria ser Walt ou Vladimir ou Oscar ou William, eles eram pessoas, não como Pessoa, mas pessoas. Seus ecos na eternidade viajaram além de sua curta vida, cravando-se na história como nomes a serem usados como referência.
Mas pouco mais divido com Pessoa que a paixão pelas letras, com Whitman que as pegadas nas folhas secas, com Maiakovsky que uma paixão pelo passado, com Wilde que um desprezo sarcástico pela expressão humana e com Shakespeare que os sentimentos de um soneto.
Sim, nomes muito maiores e mais colossais aos quais pouco mais posso fazer do que implorar que me emprestem sua inspiração para as palavras para buscar nelas a realeza que, a cada parca tentativa de emular, escapa-me entre as mãos derramando-se na terra seca (e nas folhas secas de grama de Whitman, por que não?).
Queria que coubessem em mim as palavras que Shakespeare pintou em quadro ao deixar ao mundo seu soneto um-quatro-quatro. Ah, titã de outrora, eu lhe entendo. Os tempos mudaram e que tempos seriam. Será acaso que o senhor teria vivido seus amores proibidos agora, se os pudesse? Queria perguntar-lhe tanto sobre tanto! Será que as letras das tragédias cada uma não brotaram de lágrimas proibitivas da população que ousava condenar os amores que sentia?
De uma época, um povo, que se atrevia a categorizar amores e estender a eles seu julgo do que era certo ou errado, um povo que acusava-o do crime mais perverso: o de amar. "Amar Errado", diriam, mas acaso isso sequer existe?
Mas os tempos mudaram... E nada mudou. Mais de quatro séculos se foram, mas me pergunto ainda quantas tragédias escreverias por privar-se de amar seu anjo mais novo e seu pecado manifesto. Ah céus, parece-me que o julgo humano jamais se extinguirá.
Céus, queria ser Pessoa!

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