Por quê eu escrevo?
Por quê eu me escrevo?
Por quê eu me descrevo?
Eu não sei ou não entendo essa resposta. Eu sou eu. Ora, eu sempre soube que eu era eu, eu sempre tive, pra mim, muita fé que eu era eu. Uma fé inabalável, quase religiosa, de que eu era eu! Ora, quem mais seria eu se não eu? Mas quem era eu?
É que eu aprendi uma vez, uma ou duas vidas atrás, que quanto mais simples uma coisa, mais difícil é de defini-la. Peça para qualquer aluno de matemática, física ou engenharia provar para você que "1=1" e ele provavelmente gastará três páginas, duas horas e o total absoluto da sua paciência para te elevar à suprema conclusão de que "1=1", ou de que "1=0,9999999", ou de que números não existem.
Mas talvez nisso mesmo more a mágica da matemática. Ela é exata, sólida, imutável e indiferente a quem ou o quê a esteja praticando: ela simplesmente é. Ninguém pede para a matemática se descrever, pra ela provar a própria existência, ela é, ponto, simples, fácil. Fácil?
Mas eu divago, estava a me perguntar quem eu sou... É que, sabe, eu não sei.
O que define uma pessoa? Suas qualidades? Seus defeitos? Seus medos? Seus amores?
É que eu tenho fé que a resposta de todas essas perguntas é incrivelmente simples e ao mesmo tempo infinitamente complexa: Eu sou eu, é verdade. Mas eu sou eu de muitas formas, muitos eus, muitas percepções de mundo, muitas alegorias perdidas em um imenso fractal que se desconstrói em um turbilhão de incertezas e incoerências, derrubando todas as paredes que eu construí, estraçalhando todas as janelas contra as quais atirei flores, passando em um tornado por tudo que eu conhecia de mim.
E o que restou dos inteiros que eu era e que eu tão bem conhecia?
Restaram metades: meias-certezas, meias-verdades, meias-palavras, meias rasgadas jogadas num canto escuro do meu quarto acumulando a poeira da minha própria existência enquanto eu tento me despir do que eu achava que fosse e entender o que eu realmente sou, ou o que eu realmente acho que sou, mas as novas roupas estão pela metade. Meus novos amores estão pela metade, tentando se equilibrar em uma régua torta enquanto eu danço entre conceitos pra me encontrar. Mas eu danço em meio-tom, em meio-passo, em meio-ciclo ocupando somente meio-tablado enquanto tropeço em uma meia-pisada-em-falso no meio do palco, eu meio que caio, meio que me levanto e meio que olho para o público que meio que me vê.
Eu recolho as meias do canto do quarto e eu decido... Eu decido que eu não quero viver meia vida por me compreender pela metade e decido me destruir por inteiro, me jogar às traças. Mas é que isso era meio necessário. É que eu quero ser inteiro e ilimitado, mas a mágica matemática disso é que eu não preciso me entender por inteiro para ser inteiro, basta apenas aceitar uma compreensão crescente de mim mesmo.
Isso, e juntar os cacos.
Eu escrevo porque eu quero
Eu me escrevo porque eu preciso
Eu me descrevo porque é o que me resta: Ser um eterno turbilhão-fractal de metades, escrevendo em letra torpes minhas metades inteiras!
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