terça-feira, 22 de novembro de 2016

Por gentileza, morra-me!

Morra-me
Mas morra-me aos poucos
Morra-me como quem definha
Morra-me como quem perece
Como quem padece
Mas, por gentileza, morra-me.

Não me mate.
Isso não, isso nunca.
Não me assassine nem me dilacere
Apenas morra-me.
Morra-me em cada bituca de cigarro
em que debilmente me imagina
Morra-me em cada copo de garrafa
em que me prende em sua memória
Morra-me em cada momento bom
cure-se morrendo-me
Mas, por gentileza, morra-me.

Morra-me assim, devagar
Morra-me como quem não me quer morrer
Como quem quer aproveitar cada passo
Cada pedaço
Cada resquício
Mas, por gentileza, morra-me.

Não me morra em mim
Não me morra no eu que te fale
Não me morra de uma forma brutal, definitiva
Mas morra-me
Morra-me impreterivelmente
Morra-me irremediavelmente
Morra-me incorrigivelmente
E, se puder e caso se atreva
Morra-me agradavelmente
Morra-me aos poucos, em você
Mas, por gentileza, morra-me.

Morra-me saboreando-se
Aproveitando para destilar em ti cada gota de mim
Morra-me livrando-se
Morra jogando fora o que de mim em ti se apega
Morra-me como preferir
Mas, por gentileza, morra-me!

(Poema escrito após finalizar e refletir sobre o livro Uma Duas, da autora Eliane Brum, ao perceber que de fato, todos nós guardamos um pouco dos outros em nós, e um pouco de nós nos outros).

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Aos Titãs que Antevieram

Queria ser pessoa. Não pessoa, Pessoa.
Não queria ser pessoa gente, queria ser Pessoa. O Pessoa.
Queria ter a majestade de Pessoa com as palavras, capaz de tecer sobre a tela áspera das palavras a ácida pintura da hipocrisia humana, mas Pessoa era mais que pessoa, ele era, antes, Fernando, mas pouco nos perguntamos sobre Fernando (a pessoa, não o Pessoa). Me pergunto se me perguntaria quem era Fernando que não Pessoa... Mas isso, às pessoas, pouco importa. Daí se vai que o autor de muitas pessoas e muitas Pessoas morreu perguntando-se o que amanhã traria.
Queria ser Whitman, ser Maiakovsky, ser Wilde, Shakespeare, ser míster em palavras, capazes de dançar entre elas com um silêncio solene, deixando apenas que suas letras falassem volumes muito maiores do que suas bocas jamais conseguiriam produzir. Mas não queria ser Walt ou Vladimir ou Oscar ou William, eles eram pessoas, não como Pessoa, mas pessoas. Seus ecos na eternidade viajaram além de sua curta vida, cravando-se na história como nomes a serem usados como referência.
Mas pouco mais divido com Pessoa que a paixão pelas letras, com Whitman que as pegadas nas folhas secas, com Maiakovsky que uma paixão pelo passado, com Wilde que um desprezo sarcástico pela expressão humana e com Shakespeare que os sentimentos de um soneto.
Sim, nomes muito maiores e mais colossais aos quais pouco mais posso fazer do que implorar que me emprestem sua inspiração para as palavras para buscar nelas a realeza que, a cada parca tentativa de emular, escapa-me entre as mãos derramando-se na terra seca (e nas folhas secas de grama de Whitman, por que não?).
Queria que coubessem em mim as palavras que Shakespeare pintou em quadro ao deixar ao mundo seu soneto um-quatro-quatro. Ah, titã de outrora, eu lhe entendo. Os tempos mudaram e que tempos seriam. Será acaso que o senhor teria vivido seus amores proibidos agora, se os pudesse? Queria perguntar-lhe tanto sobre tanto! Será que as letras das tragédias cada uma não brotaram de lágrimas proibitivas da população que ousava condenar os amores que sentia?
De uma época, um povo, que se atrevia a categorizar amores e estender a eles seu julgo do que era certo ou errado, um povo que acusava-o do crime mais perverso: o de amar. "Amar Errado", diriam, mas acaso isso sequer existe?
Mas os tempos mudaram... E nada mudou. Mais de quatro séculos se foram, mas me pergunto ainda quantas tragédias escreverias por privar-se de amar seu anjo mais novo e seu pecado manifesto. Ah céus, parece-me que o julgo humano jamais se extinguirá.
Céus, queria ser Pessoa!

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Um Pouco de Contexto

Em pleno 2016, por que um blog?

A ideia foi de uma amiga minha. Basicamente, eu tenho o hábito de contar ao papel o que estou sentindo, enfiá-lo esquecido em uma gaveta qualquer e deixa-lo lá para juntar poeira. Mas ela me lembrou que meus desabafos podem ser de alguma ajuda e de alguma valia para outras pessoas que podem acabar por esbarrar nesses textos, então, êi-los.

Eu irei postar aos poucos, tanto textos que escrevi há tempos (como os que já foram postados antes dessa postagem) quanto novos.

O título do blog vem de um dos textos mais importantes que escrevi, que resume o momento em que me aceitei como bissexual e que fiz questão de ser o primeiro texto que postei aqui, ainda que não seja NEM DE LONGE o primeiro que escrevi (este mérito cabe a um poema com nome de mulher que escrevi para uma paixonite de infância, que com alguma sorte e bastante manutenção do meu próprio bom-senso, JAMAIS verá as páginas desse blog: este merece sim ser esquecido nas névoas do tempo).

Bem, bem-vindos; se lhes for de alguma valia, desfrutem de Minhas Metades Inteiras.

Talha do Cinzel

(Um pouco de contexto antes da leitura: outro texto que foi dedicado a uma amiga durante um momento difícil, a quem quis emprestar minha compreensão sobre a dor que ela enfrenta)

Talvez essa seja só mais uma revoada de palavras débeis que eu deixarei juntar poeira num canto qualquer de uma gaveta, fechada em uma caixa de plástico selada em fragmentos de uma alma que, pela sua, se despedaça.
Você se diz fazendo-se em mármore, perdida entre dores e lágrimas, mas ora, nas mãos delicadas de quantos artistas a crueldade dolorosa do cinzel e a umidade das águas não construíram no mármore a mais bela das peças? Talvez seja verdade que você esteja aprendendo a ser mármore, mas quantos bustos de Júlios Césares e quantos santos, anjos e sacristão já não o foram antes? Quantas madonnas, quantas obras-primas não precisaram, primeiro, ser dura pedra?
Você me diz que não enxerga em si a aura, a alma e a integridade que eu vejo, então eu quero lhe emprestar meus olhos, ou ao menos minhas letras, para quando as suas próprias palavras te quiserem trair. Você me dirá 'dói', mas eu estarei aqui para te lembrar que é apenas o atritivo talho do cinzel, você me dirá 'me escorrem lágrimas', e eu te lembrarei que a água precisa molhar o cordame para que ele a esculpa. Você não será uma obra trabalhada em dias, não será uma peça talhada aos poucos, e talvez agora você veja o bloco duro sem conseguir, na visão do artista, enxergar a peça final, mas há aí uma obra-prima a ser esculpida, que terá tanta realidade e realeza, que veremos todos dançar entre finíssimos tecidos de pedra enquanto todos aplaudimos admirados, enquanto só você saberá do doer de cada cinzelada a cortar-lhe a pele.
Mas estou aqui e estarei aqui, e cada talho de cinzel que te fizer sangrar, fará em mim romper um fragmento de alma.
Mas estou aqui!

Olhares

(Um pouco de contexto antes da leitura: Esse micro texto foi uma homenagem a uma amiga que vivia um momento difícil, a quem eu quis emprestar minha visão sobre ela, e sobre belezas que eram a ela invisíveis).

Que se é verdade o que dizem, eu agora o entendo: a noção de que um buraco negro que suga para si tudo que dele se aproxima, que mesmo a luz não o escapa, curvando-se para se adequar à sua imponência. Se assim é, eu o compreendo, pois vislumbro entre a dimensão de um olhar o fisgar de um buraco negro, pois se nem mesmo a luz o faz, como atreveria-me eu a desviar o olhar de seus olhos.

Minhas Metades Inteiras

Por quê eu escrevo?
Por quê eu me escrevo?
Por quê eu me descrevo?
Eu não sei ou não entendo essa resposta. Eu sou eu. Ora, eu sempre soube que eu era eu, eu sempre tive, pra mim, muita fé que eu era eu. Uma fé inabalável, quase religiosa, de que eu era eu! Ora, quem mais seria eu se não eu? Mas quem era eu?
É que eu aprendi uma vez, uma ou duas vidas atrás, que quanto mais simples uma coisa, mais difícil é de defini-la. Peça para qualquer aluno de matemática, física ou engenharia provar para você que "1=1" e ele provavelmente gastará três páginas, duas horas e o total absoluto da sua paciência para te elevar à suprema conclusão de que "1=1", ou de que "1=0,9999999", ou de que números não existem.
Mas talvez nisso mesmo more a mágica da matemática. Ela é exata, sólida, imutável e indiferente a quem ou o quê a esteja praticando: ela simplesmente é. Ninguém pede para a matemática se descrever, pra ela provar a própria existência, ela é, ponto, simples, fácil. Fácil?
Mas eu divago, estava a me perguntar quem eu sou... É que, sabe, eu não sei.
O que define uma pessoa? Suas qualidades? Seus defeitos? Seus medos? Seus amores?
É que eu tenho fé que a resposta de todas essas perguntas é incrivelmente simples e ao mesmo tempo infinitamente complexa: Eu sou eu, é verdade. Mas eu sou eu de muitas formas, muitos eus, muitas percepções de mundo, muitas alegorias perdidas em um imenso fractal que se desconstrói em um turbilhão de incertezas e incoerências, derrubando todas as paredes que eu construí, estraçalhando todas as janelas contra as quais atirei flores, passando em um tornado por tudo que eu conhecia de mim.
E o que restou dos inteiros que eu era e que eu tão bem conhecia?
Restaram metades: meias-certezas, meias-verdades, meias-palavras, meias rasgadas jogadas num canto escuro do meu quarto acumulando a poeira da minha própria existência enquanto eu tento me despir do que eu achava que fosse e entender o que eu realmente sou, ou o que eu realmente acho que sou, mas as novas roupas estão pela metade. Meus novos amores estão pela metade, tentando se equilibrar em uma régua torta enquanto eu danço entre conceitos pra me encontrar. Mas eu danço em meio-tom, em meio-passo, em meio-ciclo ocupando somente meio-tablado enquanto tropeço em uma meia-pisada-em-falso no meio do palco, eu meio que caio, meio que me levanto e meio que olho para o público que meio que me vê.
Eu recolho as meias do canto do quarto e eu decido... Eu decido que eu não quero viver meia vida por me compreender pela metade e decido me destruir por inteiro, me jogar às traças. Mas é que isso era meio necessário. É que eu quero ser inteiro e ilimitado, mas a mágica matemática disso é que eu não preciso me entender por inteiro para ser inteiro, basta apenas aceitar uma compreensão crescente de mim mesmo.
Isso, e juntar os cacos.
Eu escrevo porque eu quero
Eu me escrevo porque eu preciso
Eu me descrevo porque é o que me resta: Ser um eterno turbilhão-fractal de metades, escrevendo em letra torpes minhas metades inteiras!